Criolo Doido — o nome artístico de Kleber Cavalcante Gomes — passou a última década construindo uma obra que não se deixa classificar. Começou com rap de periferia paulistana, incorporou samba, blues, MPB, reggae, afrobeat, e chegou a um ponto onde qualquer tentativa de definir o que ele faz parece redutora.

O novo álbum, "Espelho Partido", lançado em junho de 2025, é o resultado de três anos de trabalho e de uma decisão corajosa: fazer um disco que soa como tudo que Criolo absorveu ao longo de 20 anos de carreira, sem hierarquia entre os gêneros e sem medo de soar pretensioso.

O que o álbum faz

A faixa de abertura, "Cidade de Deus Não É Filme", começa com um sample de samba de 1962 e termina com bateria eletrônica e versos que citam Frantz Fanon. Em dois minutos e quarenta segundos, Criolo estabelece o tom do álbum: nada está fora do lugar porque tudo é o lugar.

A produção, assinada por Criolo em parceria com o produtor pernambucano Kadu Freitas, é densa sem ser pesada. Há camadas que só aparecem na terceira ou quarta escuta — um violoncelo enterrado na mixagem de "Mãe Preta", um coro de crianças que surge por dois segundos em "Favela Chique" antes de desaparecer.

"Criolo não faz rap que explica a periferia para quem não é da periferia. Ele faz rap que a periferia reconhece como seu — e que qualquer pessoa com ouvidos abertos consegue entrar. Essa é a diferença entre arte e sociologia."

As faixas que ficam

"Espelho Partido" tem 14 faixas e nenhuma é descartável. Mas algumas ficam de forma diferente. "Não Existe Amor em SP" — regravação do clássico de 2014 com arranjo completamente novo — soa como se a música sempre tivesse sido assim. "Linha de Frente" é o rap mais direto do álbum, sem ornamentos, e é devastador. "Domingo" é uma balada de samba que Cartola poderia ter assinado.

Faixas do álbum "Espelho Partido"
  1. Cidade de Deus Não É Filme — 2:42
  2. Espelho Partido — 4:18
  3. Mãe Preta — 3:55
  4. Linha de Frente — 3:12
  5. Favela Chique — 4:44
  6. Não Existe Amor em SP (Nova Versão) — 5:02
  7. Domingo — 3:28
  8. Corpo Fechado — 4:11
  9. Diáspora — 6:33
  10. Quem Tem Boca Vai a Roma — 3:47
  11. Invisível — 4:22
  12. Sangue Bom — 3:09
  13. Carta para Minha Filha — 5:15
  14. Ainda Estou Aqui (Reprise) — 1:48

Por que isso importa

O rap brasileiro está em um momento de transição. A geração do trap domina as plataformas de streaming. Os números são impressionantes. Mas há uma diferença entre popularidade e relevância cultural — e Criolo, com "Espelho Partido", faz um argumento poderoso de que as duas coisas não precisam ser mutuamente exclusivas.

Este é o melhor álbum brasileiro de 2025. Provavelmente o melhor álbum de Criolo. E possivelmente um dos melhores álbuns de rap em língua portuguesa da última década. Não é pouca coisa.