Quando "Ainda Estou Aqui" ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional em março de 2025, algo estranho aconteceu no Brasil. Uma parte do país comemorou como se fosse uma vitória esportiva. Outra parte ficou em silêncio. E uma terceira parte começou a perguntar: mas de que filme estamos falando mesmo?
Esse terceiro grupo é o mais revelador. Porque "Ainda Estou Aqui" não é um filme difícil. Não é experimental, não é hermético, não exige conhecimento prévio de cinema. É um drama familiar sobre uma mulher que perdeu o marido para a ditadura militar e decidiu, durante décadas, procurar a verdade. É um filme sobre resistência silenciosa. E ainda assim, muita gente não sabia que ele existia até o Oscar.
O que o filme faz de certo
Walter Salles voltou ao Brasil depois de anos fazendo filmes internacionais e fez algo que parecia simples mas é raramente conseguido: um filme político que não parece panfletário. "Ainda Estou Aqui" não grita. Ele sussurra. E é exatamente por isso que machuca mais.
Fernanda Torres, no papel de Eunice Paiva, entrega uma performance que é quase o oposto do que o cinema brasileiro costuma premiar. Não há grandes cenas de choro. Não há discursos. Há uma mulher que continua vivendo, que continua sendo mãe, que continua existindo — e é nessa continuidade que está a resistência.
"Fernanda Torres já havia sido indicada ao Oscar em 1999 por 'Central do Brasil'. Vinte e seis anos depois, ela voltou com uma performance ainda mais contida e ainda mais poderosa. Isso diz algo sobre o que o cinema brasileiro perdeu no intervalo."
O que o Oscar revelou
A vitória no Oscar revelou várias coisas ao mesmo tempo. Revelou que o cinema brasileiro tem qualidade para competir no mais alto nível. Revelou que histórias brasileiras têm ressonância universal quando contadas com honestidade. E revelou, de forma desconfortável, que o Brasil ainda tem dificuldade de olhar para sua própria história recente.
A ditadura militar brasileira terminou em 1985. Quarenta anos depois, um filme sobre esse período ainda causa polêmica. Ainda há gente que nega os fatos documentados. Ainda há gente que prefere não discutir. E é exatamente por isso que filmes como "Ainda Estou Aqui" continuam sendo necessários — não como documentos históricos, mas como espelhos.
Por que o cinema brasileiro tem medo de ser popular
Existe um paradoxo no cinema brasileiro que "Ainda Estou Aqui" expõe involuntariamente. O filme foi financiado com recursos públicos, distribuído por uma empresa pequena, exibido em poucos cinemas no lançamento — e ganhou o Oscar. Enquanto isso, filmes com orçamentos dez vezes maiores, distribuição nacional e campanhas de marketing agressivas somem das salas em duas semanas.
O problema não é de qualidade. É de coragem. As distribuidoras brasileiras têm medo de apostar em filmes que não se encaixem em fórmulas testadas. E o público, que não é burro, percebe quando está sendo subestimado.
Conclusão
"Ainda Estou Aqui" é um grande filme. É também um sintoma. Um sintoma de que o cinema brasileiro, quando tem liberdade para ser honesto, consegue fazer algo extraordinário. E um sintoma de que essa liberdade ainda é a exceção, não a regra.
O Oscar foi merecido. Mas o mais importante não é a estatueta. É o que o filme diz sobre quem somos e sobre o que ainda não conseguimos olhar de frente.